quarta-feira, 2 de abril de 2008

Polícias cansados




A vida não está nada fácil para os agentes da PSP que andam na rua em patrulha. Queixam-se dos baixos salários, da falta de equipamento para fazerem frente aos criminosos e até as camaratas onde dormem, não têm as mínimas condições.
São relatos impressionantes de homens e mulheres desiludidos, que todos os dias vestem a farda e arriscam a vida. Com a onda de criminalidade violenta a que o país assiste e, numa altura em que os portugueses vivem com medo, a insegurança também aumenta entre os próprios policias. Problemas sentidos nos elementos policiais que diariamente tem que fazer face e resolver um enorme conjunto de problemas, um trabalho ingrato é de salientar que o sentimento de frustração ainda não atingiu a qualidade do serviço prestado às populações. "Os polícias fazem tudo para que esse estado de espírito não tenha implicações".

Muitos agentes da PSP colocados em Lisboa esperam impacientemente em camaratas degradadas, pensões baratas ou quartos alugados a permissão para voltar à terra e pôr fim à desmotivação e às depressões que em alguns casos podem levar ao suicídio.
Depois de terminar o curso na Escola Prática de Polícia, em Torres Novas, a maioria dos agentes colocados nos comandos de Lisboa e Porto chega de vários pontos do país, mas com a ambição de voltar à terra de origem, multiplicando os pedidos de transferência que, no entanto, tardam em concretizar-se.
A ausência da família, as dificuldades relacionadas com o serviço e a falta de condições económicas e sociais tornam-se insuportáveis para alguns agentes, podendo em situações extremas levar ao suicídio. Atentos a estas e outras situações, a PSP e a GNR têm em funcionamento gabinetes de psicologia e linhas telefónicas SOS para prevenir estes casos, levando em Outubro do ano passado o Governo a apresentar um Plano de Prevenção de Suicídios, que revela que, entre 1998 e 2007, sesuicidaram 54 elementos das duas forças de segurança.
Em 78 por cento dos casos, os elementos das forças de segurança que se suicidaram tinham tido alterações recentes de vida: profissionais (77 por cento), familiares (56 por cento), financeiros (56 por cento) e legais (56 por cento).
Oriundo de Castelo Branco, o agente João (nome fictício, tal como os dos restantes agentes citados) está desde 1999 a exercer a profissão em Lisboa com os olhos posto no dia em que poderá regressar à sua terra e voltar a viver com a mulher e os três filhos menores, que sóconsegue visitar nos dias de folga.
"É muito complicado gerir a distância e as saudades. No primeiro dia ´andei a bater mal`, mas depois vamos levando, vivendo um dia de cada
vez", disse João, que logo que entrou ao serviço pediu transferência para o comando de Portalegre.
Na altura tinha 78 pessoas à sua frente na lista de transferência, agora são 28. A "saírem a uma média de quatro ou cinco por ano ainda tenho muito que esperar", sublinhou.
Quando chegou a Lisboa João foi viver para uma camarata, depois arranjou casa com cinco colegas, que teve de abandonar recentemente devido à transferência de três companheiros. Os que ficaram não conseguiram suportar as despesas e regressaram às camaratas. Há escassos meses em Lisboa, o agente Miguel deixou em Braga a mulher, que está a estudar, e duas filhas com menos de dois anos.
Confessou à Lusa que já recorreu ao apoio psicológico para conseguir suportar as saudades, que vai combatendo, recorrendo vezes sem conta a um filme da família que tem no telemóvel. Tentou ir para uma camarata, mas a "lista de espera enorme" obrigou-o a ir para uma pensão "sem condições" a pagar 200 euros, o que emagrece ainda mais o ordenado de 780 euros. Acresce a estas despesas a alimentação e o dinheiro que gasta em viagens para Braga, cerca de 100 euros por mês."Sempre gostei de uma força de segurança, mas nunca pensei ficar tanto tempo e encontrar estas condições. Se fosse hoje, pensava duas vezes", sublinhou, desabafando que, mesmo assim, não pensa em desistir porque tem dois filhos para criar.
A vida destes polícias assemelha-se à do agente António, que deixou a família e namorada em Évora para abraçar a profissão do seu "sonho", mas a esperança de exercê-la na sua terra é de uma década, uma vez que diz ter meia centena de elementos à sua frente na lista detransferências. Nos primeiros dias, António ficou em casa de colegas, depois foi para uma camarata que "não tinha condições nenhumas, com tectos a cair,
janelas partidas e muita humidade", acabando por alugar uma casa com três colegas.
"Houve colegas que no início ficaram a dormir na esquadra, outros iam para bares para poder passar a noite e houve casos que dormiram no banco do jardim", lembrou.
Conhecedor destas andanças, o agente Pedro conseguiu finalmente regressar ao Porto, depois de "mais de oito anos com o saco às costas".
Apesar de conhecer as dificuldades de quem vai viver para uma cidade longe e o "choque de perder a família", Pedro defende que os agentes deviam preparar-se para esta nova vida porque as "coisas não caem aos pés". A psicóloga Sandra Coelho, do Gabinete de Apoio Psicológico do Sindicato dos Profissionais da Polícia da PSP (SPP/PSP), disse à agência Lusa que "estão a aparecer muitos polícias novos, com poucos anos de serviço, a pedir ajuda porque já não aguentam" a situação. "São polícias tristes que não se conseguem integrar neste sistema e estão a pedir algumas estratégias para que consigam ser felizes e fazer o que gostam", disse a psicóloga. Confrontado com estas declarações, o porta-voz da Direcção Nacional da PSP, Hipólito Cunha, disse apenas que os candidatos quando vão para a polícia têm conhecimento dos ordenados que vão auferir e as circunstâncias em que vão trabalhar.
Por outro lado, acrescentou, os candidatos quando entram para a Escola Prática de Polícia começam logo a receber vencimento de 510 euros por mês.
"Mesmo assim, a própria instituição faz tudo o que está ao seu alcance para tornar o acolhimento dos elementos o melhor possível", sublinhou.
Para melhorar as condições dos agentes deslocados, a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP-PSP) e o SPP/PSP defendem a criação de habitações em Lisboa e no Porto para albergar os agentes
que saem da escola ou um subsídio de deslocação.
O presidente da ASPP-PSP, Paulo Rodrigues, lembrou que há agentes a viver anos em camaratas e outros que para arranjar um "sítio barato vão para bairros sociais cuja localização entra em conflito com a própria missão da PSP", sublinhou. Para prevenir estas situações, o director do Gabinete de Psicologia da PSP, Fernando Passos, aconselha os candidatos a informarem-se antes de concorreram à polícia.
"Os primeiros anos devem ser encarados com naturalidade e tranquilidade, porque o sistema funciona assim", afirmou, admitindo, contudo, não ter dúvidas de que a separação da família e da terra de origem podem causar alterações a nível emocional e afectar o desempenho dos profissionais. O responsável lembrou um despacho, criado em 2007 pelo então ministro da Administração Interna António Costa para prevenir estas situações, que determina que seja feita a reavaliação dos novos elementos da PSP.
"Qualquer caso que suceda relativamente a estes indivíduos mais jovens e que nos seja reportado é imediatamente acompanhado por um especialista para tornar a sua integração mais fácil", sublinhou.
(Lusa)

Um comentário:

Vigilante_Profissional disse...

De facto a vossa vida nómada é arrepiante,só estarão bem depois de imensos anos de carreira...Melhores dias virão,mas axo que só vão la, se fizerem outra manifestaçao como a dos anos 80! A manifestaçao dos "molhados"...uma dessas faz cair um governo completamente! Bem haja á policia!