segunda-feira, 21 de julho de 2008

GRANDE FILME

Inspector espia para a Coca-Cola
Escutas telefónicas, noites de vigilâncias intensas com fotografias e gravações ilegais. Tudo no carro de serviço, o Volkswagen Golf da Polícia Judiciária. O inspector Sérgio A., colocado em Lisboa no Departamento Central de Prevenção e Apoio Tecnológico (DCPAT), já andava a espiar há mais de nove meses por encomenda. Só recebia ordens directas de João Santos, detective privado, mas o CM sabe que entre os vários clientes se encontrava a Coca-Cola.
O inspector espiou ao serviço da marca internacional de refrigerantes, numa altura em que a sua representação no nosso país 'pretendia obter informações relacionadas com um possível desvio de mercadorias', lê-se no relatório do Departamento Disciplinar e de Inspecção da PJ, encarregue da investigação interna. Os responsáveis da Coca-Cola apenas saberiam estar a contratar o detective Santos e nunca um inspector da PJ.
Mas foi na devassa da vida privada, contratado para desvendar mistérios em relações amorosas, que Sérgio A. se especializou (ver caixas). São seis as vigilâncias à margem do DCPAT, e sempre com todos os meios da PJ à disposição, em que a investigação interna o apanhou.Só que, curiosamente, não consta do relatório interno da PJ o caso pelo qual o escândalo rebentou no mês passado – por dois irmãos terem pagado pelos serviços de dois detectives privados, polícias e ainda de dois funcionários de operadoras móveis para perseguir e aterrorizar um jovem, sobrinho dos donos da editora Assírio & Alvim.
A vítima deste caso queixou-se à PSP, depois das várias ameaças de morte e de a sua família ter recebido coroas de flores em seu nome. Foi só a partir de então que a Divisão de Investigação Criminal da PSP chegou, para além dos outros elementos, a pelo menos três agentes seus e ao inspector da PJ.
De qualquer forma, os seis casos presentes no relatório da PJ foram suficientes para Almeida Rodrigues, director nacional, ordenar a suspensão imediata do polícia.
VIGIOU MULHERES, UM MARIDO E ATÉ UM TAXISTA
A investigação interna da PJ, depois de uma denúncia da Divisão de Investigação Criminal da PSP, passou por buscas à casa, ao 'computador, aos telefones e à viatura de serviço' do inspector Sérgio A., permitindo aos colegas apurar que, entre 22 de Abril e 3 de Junho deste ano, 'Sérgio A. estabeleceu contactos regulares com o detective privado João Santos, efectuando vigilâncias, recolhendo fotografias e fornecendo-lhe toda a informação obtida'. Espiou na rua S. João da Caparica, 'relativo ao pedido de uma mulher que pretendia saber se o marido, que abandonara o lar, tinha alguma relação extraconjugal'. Vigiou ainda a proprietária de um Mercedes SLK no Campo Grande, Lisboa, na noite de 14 de Maio; o funcionário de uma empresa de crédito; um taxista de Casal de Cambra e outra mulher.
'INVIABILIZA A RELAÇÃO COM O SERVIÇO PÚBLICO'
O director nacional da Judiciária não perdeu tempo e, quando o responsável pelo DCPAT, João Carreira, lhe deu conhecimento das suspeitas sobre um inspector – por peculato de uso, violação de segredo, gravações de fotografias ilícitas e instrumentos de escutas telefónicas –, determinou um processo disciplinar imediato. O despacho de Almeida Rodrigues é de 27 de Junho e o inspector Sérgio A. foi logo suspendido de funções. Diz o director que, 'a comprovar-se, inviabiliza a manutenção da relação com o serviço público'. Foram violados deveres de isenção, zelo, lealdade e sigilo. A pena disciplinar aplicável é a de demissão.
PORMENORES
ATRÁS DE UM TRAFICANTE
Numa justificação ao detective privado que lhe pagava, o inspector da PJ disse-lhe, a 6 de Junho, que na véspera não pôde atender o seu telefonema porque passou a noite toda a trabalhar numa vigilância oficial, atrás de um traficante.
SUSPEITO AINDA NEGOU

O Processo-crime está entregue ao procurador João Guerra, do Departamento de Investigação e Acção Penal, que emitiu o mandado de busca e apreensão. Confrontado com as suspeitas, o inspector da PJ começou por negar.
Fonte: Correio da Manhã

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