sexta-feira, 15 de agosto de 2008

"Disseram que me matavam”

Teresa Paiva, médica sequestrada na dependência do BES, conta como viveu as horas em que esteve retida por causa de uma ida pouco habitual ao banco.



Correio da Manhã – Como é que foi apanhada no sequestro?
Teresa Paiva – Vivo e tenho o consultório na zona de Campolide. São as funcionárias que normalmente depositam o dinheiro. Naquele dia calhou ir eu. Antes assim.
– O que é que encontrou dentro do BES, quando chegou?
– O banco vazio. Veio um homem ter comigo, pensei que fosse segurança e fui encaminhada para o gabinete da gerente. Quando entrei vi todos amarrados com as mãos atrás das costas, de pé, virados contra a parede. A gerente era a única de frente.
– Os assaltantes diziam o quê?
– ‘Portem-se bem se não querem morrer!’ A mim, disseram logo que me matavam. Insultaram-nos de todas as formas. Mas não queriam nada de nós, só o cofre interessava.
– Agrediram alguém?
– Só a cliente que acabou por sair com uma crise de pânico – bateram-lhe num ombro.
– O que é que lhe fizeram a si?
– Puseram-me a abraçadeira. E fiquei de pé quase uma hora. O que sobreviveu (Wellington) insultava-me por não estar quieta.
– Onde é que estava o Nilton?
– A determinada altura foi com a gerente para o cofre. O Wellington queria fechar-nos lá dentro e a seguir foi também para o cofre com o subgerente.
– Porquê?
– Porque a gerente já lhes tinha explicado que só tinha metade do código do cofre – os últimos dígitos só eram do conhecimento do subgerente.
– Aos reféns não roubaram nada?
– Nada. Deixei lá a minha mala e o saco com o dinheiro do depósito, que recuperei no dia seguinte. Saímos à pressa depois de a polícia entrar.
– Como é que isso aconteceu?
– Vi uns agentes da PSP lá dentro, mas o Wellington meteu logo a pistola à cabeça do subgerente e seguiu com ele para o cofre. Viu que não tinha outra hipótese senão abdicar dos outros quatro reféns. Foi a nossa sorte.
– Saíram os quatro ao mesmo tempo do que a polícia. E depois, para onde foi encaminhada?
– Fui logo levada para a Polícia Judiciária, na avenida José Malhoa (Direcção Central de Combate ao Banditismo). Fomos ouvidos em separado. Basicamente, queriam saber pormenores sobre os sequestradores.
"WELLINGTON ERA UM PUTO"
Teresa Paiva descreve os seus sequestradores como "muito agressivos e nervosos". No entanto, garante que entre os dois "nunca houve qualquer discussão" durante as quase dez horas que durou o impasse. Sobre Wellington, o assaltante que sobreviveu, resume o seu comportamento infantil: "Era um puto".
PERFIL
Teresa Paiva: A professora universitária e neurologista Teresa Paiva, 62 anos, foi responsável pela Consulta do Sono do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria. Hoje exerce medicina privada.
BES DÁ APOIO A CLIENTES
O Banco Espírito Santo colocou ontem à disposição de todos os reféns do assalto à dependência de Campolide, Lisboa, o apoio psicológico que ofereceu aos funcionários, na sequência de Teresa Paiva ter criticado a ausência de contacto por parte da instituição.
"Sou cliente e esperava algum apoio e não recebi qualquer contacto de ninguém", lamenta a neurologista, resgatada pela polícia pouco tempo depois do início do assalto, juntamente com outros três clientes que tinham sido feitos reféns.
Ressalvando que a situação vivida por estes quatro reféns "em nada se compara à vivida pelos dois funcionários" do BES, que só foram libertados pela polícia ao fim de oito horas, Teresa Paiva estranha, ainda assim, que nenhuma entidade a tenha contactado para disponibilizar apoio, acreditando que o mesmo aconteceu com os restantes clientes.
Em comunicado, o BES divulgou que não foi possível contactar os restantes reféns, porque "a PSP não disponibiliza a identificação das pessoas envolvidas no assalto por se encontrar em segredo de Justiça".
WELLINGTON NAS MÃOS DO GENRO
"Depois de ter sido libertada, assisti ao resto do assalto pela televisão. Não esperava que tudo terminasse daquela maneira", disse Teresa Paiva, confessando que, apesar do susto, predispôs-se a ajudar Wellington enquanto estiver hospitalizado. "Ele está a ser tratado pelo meu genro no hospital."
NO BANCO TUDO PARECIA FICÇÃO
Teresa Paiva conta ainda que ajudou uma mulher durante o sequestro. "O estado de pânico de uma das reféns era tal que tive de ser eu a assisti-la." A médica diz também que só quando chegou a casa e viu as imagens se apercebeu de que era realidade: "Enquanto fui refém tudo parecia ficção."
NÚMEROS
98 000
Valor, em notas, com que os assaltantes pretendiam fugir da dependência do BES. Quase tudo foi retirado do cofre-forte da agência.
SEIS
Número de pessoas que estiveram sequestradas durante mais de oito horas no interior da agência bancária.
100
Número de agentes da PSP – entre negociadores, GOE e outros – envolvidos na operação que tentou acabar com o assalto e sequestro.


Fonte: Correio da Manhã

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