sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Snipers e comandante que deu «ordem para matar» podem sofrer de stress agudo

Os atiradores especiais da PSP e o comandante que lhes transmitiu a ordem para «disparar a matar» sobre os assaltantes do BES em Campolide poderão sofrer de stress agudo, devendo receber acompanhamento psicológico imediato, segundo uma especialista em Psicologia Criminal

Insónias, pesadelos, ansiedade e perturbações da memória, com um constante reviver dos acontecimentos, são alguns dos sintomas que poderão afectar os sniper e o responsável do Grupo de Operações Especiais (GOE) que ordenou a «neutralização» dos sequestradores.
«Há uma probabilidade média-alta de virem a sofrer de uma perturbação de stress agudo. Tirar a vida a alguém deixa, habitualmente, sequelas psicológicas nos agentes. Por isso, é recomendável que os atiradores e a pessoa que deu a ordem de comando sejam analisados rapidamente numa consulta», explicou Susana Monteiro, autora de uma tese de mestrado sobre O Impacto do Stress Profissional no Bem-Estar dos Polícias.
De acordo com a directora do Centro de Formação e Investigação em Psicologia, que colabora com o Gabinete de Psicologia da PSP, a consulta servirá para despistar a existência de sintomas de stress agudo, que se manifestam logo nos primeiros dias após o acontecimento.
O gabinete de Psicologia da PSP irá contactar os agentes mais directamente envolvidos na operação de resgate dos reféns do assalto à dependência do Banco Espírito Santo (BES) em Campolide, mas o acompanhamento psicológico é sempre voluntário.
O problema, explica Susana Monteiro, é que muitos agentes não gostam de recorrer ao gabinete de psicologia da polícia «por terem receio que os colegas ou as chefias vejam isso como um sinal de fragilidade e vulnerabilidade». No entanto, caso não seja tratado, o stress agudo poderá degenerar na síndroma de stress pós-traumático, uma perturbação com sintomas semelhantes mas mais profunda e prolongada no tempo, alerta a psicóloga.
A nível internacional, ser polícia é uma das cinco profissões consideradas de maior stress, um problema sentido por cerca de 87 por cento dos agentes da PSP, segundo o estudo concluído por Susana Monteiro no início do ano passado e baseado num inquérito realizado a 336 polícias em Portugal.
Apesar de serem chamados a actuar nas situações de maior tensão e violência, os elementos do Corpo de Intervenção (CI) ou do GOE não são os que mais sofrem de stress profissional. As maiores vítimas nem sequer usam farda: são os agentes à paisana que, dentro da PSP, têm a seu cargo a investigação criminal e a recolha de provas.
Segundo a especialista, «sempre que há uma actuação em grupo, como acontece no caso do CI ou do GOE, os níveis de stress são mais reduzidos, uma vez que a actuação do agente acaba por se diluir na actuação do colectivo».
«A aposta na prevenção do stress pode ser positiva, mas no caso dos sujeitos das Esquadras de Investigação Criminal não é de todo suficiente. Com estes policiais torna-se necessária uma intervenção mais incisiva, pois são os elementos que apresentam maior fragilidade em termos de stress», refere Susana Monteiro, na tese de mestrado dedicada a esta problemática.
Lusa/SOL

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