sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Cega, mas não em demasia

Quem ontem leu, neste jornal, a extraordinária história de Paulo Esteves, o agente da PSP que foi baleado e sobreviveu para contar ao Mundo porque um inocente aparelho dentário susteve a força da bala, não pode ficar indiferente.

Primeiro, porque o polícia fala do fatídico dia 7 de Maio de 2008 com um à-vontade desarmante; segundo, e sobretudo, porque o homem que tentou matá-lo foi libertado pelo tribunal devido a um costumeiro erro judicial. Porque se expirou o prazo máximo para ser deduzida uma acusação.

Nessa noite, o agressor foi apanhado com vários quilos de droga e 63 mil euros em dinheiro. Paulo Esteves esteve em coma, acordou, ficou dois meses em casa a recuperar. Regressou ao trabalho. Hoje, considera-se um homem com sorte, porque está vivo, mas guarda no peito a imensa revolta de quem perdeu a batalha da sua vida na secretaria.

O caso deste agente da PSP do Barreiro, parecendo único porque aparentemente irrepetível, encerra uma perversão que continua a minar o caminho dos agentes da Justiça em Portugal. De nada vale espalhar pelas ruas polícias determinados, bem armados e bem pagos (não que seja esta a realidade) se depois o seu esforço se afundar no arenoso território da inabilidade judicial.

De que serve a um polícia arriscar a vida, deter um perigoso delinquente se depois os tribunais não fecharem o círculo com celeridade? Se não decidirem?

Acresce a isto o facto de, com a generalização do recurso a armas brancas e de fogo nos crimes, poder aumentar o número de detenções e, com elas, a necessidade de sentenças ágeis. "Agora, até para roubar uma carteira, com ou sem dinheiro, é apontada uma arma", ilustra Paulo Esteves.

A Justiça, como todos os chamados grandes dossiês estruturantes da sociedade portuguesa, presta-se a chavões e frases de conveniência. Mas o vírus que vai corroendo as vísceras do sistema continua de dentes afiados.

Os ministros dizem estar preocupados, os magistrados dizem estar cientes da preocupação dos ministros, os procuradores-gerais da República dizem confiar plenamente nos seus magistrados, os presidentes da República repetem, mandato após mandato, a exigência de que tudo tem de mudar. "Mais celeridade, mais celeridade", ouvimos.

E tudo fica na mesma. E tudo ficará na mesma enquanto a Justiça não perceber em definitivo que o contrário de ser ineficiente é ser injusta. É não servir os cidadãos. É negar a sua própria condição. É ser cega não pelo dever de imparcialidade a que está obrigada, mas cega porque não consegue distinguir o certo do errado.

Fonte: Jornal de Notícias

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