terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Portugueses querem que a polícia recorra mais à força

Seis em cada dez pessoas ouvidas em estudo universitário têm opinião morna sobre eficácia da PSP. Destacadas falta de meios e de formação

Não faz parte da farda, mas é um ingrediente que os portugueses gostariam de juntar à figura do polícia, força. Um estudo sobre a imagem que a população tem da PSP e das suas condições de trabalho revela ser maioritário o grupo defensor de que os polícias deviam usar mais a força. A pouca severidade com os infractores é, por outro lado, apontada como primeira causa da criminalidade.

É o primeiro estudo científico alargado sobre a imagem da PSP e foi realizado ao longo do ano passado por Rui Maia, professor da Universidade Fernando Pessoa. Seis em cada dez inquiridos têm uma opinião morna sobre a actuação dos agentes, classificando-a como "intermédia entre o bom e o mau" , mas quando se fala de uma apreciação qualitativa da corporação os resultados pioram, 55,9% admitem um registo negativo, 29,4% positivo e os restantes neutro.

O projecto nasceu a pedido da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), quando no Verão quente de 2008 debatia o aumento da criminalidade e a percepção de que a actuação das forças de segurança "não era por vezes bem entendida pela população". Como ninguém se faz ao caminho sem definir objectivos, foi sentida a necessidade de um diagnóstico que ajudasse a perceber o que fazer para aproximar os polícias dos cidadãos, explica Paulo Rodrigues, presidente da ASPP. "Talvez por receio das conclusões, nunca se tinha feito um estudo deste género em Portugal. Não deixa de ser curioso que tenha sido o sindicato a pedi-lo."

Falta de meios

Sem deixar de sublinhar que esta primeira abordagem exige aprofundamentos futuros, o investigador Rui Maia destaca que as respostas evidenciam "algum descontentamento com a forma como a PSP actua", ou como não actua à medida das expectativas. Mas muita da culpa pela incapacidade de dar resposta é atribuída à falta de meios e de formação, 56,2% consideram que os agentes não têm o equipamento necessário para "exercer convenientemente" as suas funções e 26,3% apontam falhas na formação. Paulo Rodrigues confessa que esta leitura crítica da formação o surpreendeu. "Aumentou o grau de exigência nas habilitações para ingressar na Polícia, e estava convencido de que as pessoas sentiam essa evolução."

Se houve algumas surpresas, muitas conclusões do estudo não fizeram mais que confirmar intuições e frases feitas. É inequívoca a utilidade social reconhecida à actividade policial, 60,2% dizem que é muito útil e 23% útil. Apesar dos casos mediatizados em que o polícia é o mau da fita, em termos de carácter a imagem dos profissionais quase não é beliscada, com 85,7% dos inquiridos a considerarem-nos tão honestos como as restantes pessoas.

A queixa de que a Polícia se empenha na caça à multa não é mera conversa de café e encabeça a lista de juízos negativos sobre a acção da PSP . Injustiça? Não necessariamente, comenta Paulo Rodrigues em tom crítico. "É verdade que este governo apostou muito em criar condições na fiscalização de trânsito, e se calhar em termos comparativos o trânsito está mais equipado que outros serviços."

Timing influencia?

Do que a população gostaria, no fundo, era de ver no combate ao crime mão tão firme como a que inscreve euros em multas. A maior parte dos inquiridos acha que a PSP devia usar a força com maior regularidade, 29,3% concordam totalmente e 17,4% concordam. Como 26% não têm posição definida sobre esta questão, resulta claramente minoritário o grupo de quem rejeita mais força. O timing do inquérito e das entrevistas personalizadas poderá ter alguma influência nesta percepção. A recolha decorreu nos meses de Janeiro e Fevereiro do ano passado, quando começavam a ser noticiados dados estatísticos sobre o aumento da criminalidade violenta em 2008.

A conclusão relativa ao uso da força cruza-se com as opiniões sobre as causas da criminalidade. Pouca severidade com os infractores é a mais apontada, totalizando quase metade das respostas. Em segundo lugar é indicado o consumo de drogas. No entanto, na lista dos factores mais valorizados abundam causas sociais, da falta de educação ao desemprego, passando pela pobreza, pelos problemas familiares e pela falta de possibilidade de frequentar a escola. "Não será abusivo afirmar que existirá uma sensibilidade social para o combate ao crime se fazer pelo combate a situações de pobreza e de insuficiência económica", conclui Rui Maia.

As pessoas que foram vítimas de crime manifestam maior insatisfação com a actuação da PSP e são também as que mais consideram que a sua capacidade piorou nos últimos dez anos. As vivências de situação de crime influenciam a apreciação global, sublinha Rui Maia. Outra variável com reflexo nos dados é a idade. O tom crítico aumenta nas faixas etárias mais altas e é acima dos 60 anos que mais se ouve dizer que a intervenção da PSP piorou na última década. A visão negativa é, contudo, a excepção, com quase metade dos inquiridos a considerarem que melhorou e 23,1% que está na mesma.

A amostra dos quase mil inquiridos é equilibrada por idades e privilegia os distritos urbanos e litorais, onde a presença da PSP é maior. Mas o autor admite uma distorção nas qualificações, resultante da metodologia de inquéritos feitos online, 74,7% dos respondentes frequentaram a universidade ou têm formação superior, o que em teoria significa que é uma população "mais crítica e atenta aos problemas relacionados com o trabalho da PSP".

Terminado o trabalho de investigação, o objectivo da ASPP é divulgá-lo e torná-lo útil para a Polícia. Para já, o relatório será enviado a instituições como a Direcção Nacional da Polícia, o Ministério da Administração Interna (que, não conhecendo ainda as conclusões, não fazem comentários), o Sistema de Segurança Interna e os grupos parlamentares. Segue-se um fórum de debate, até final deste semestre. "Queremos fazer uma compilação e disponibilizá-la, para que ajude na formação de novos polícias", explica Paulo Rodrigues.

Fonte: ionline

Nenhum comentário: